UM BATE-PAPO COM

Sergio Molina

1.      Há 5 anos você vem desenvolvendo, com grande sucesso de público, as Oficinas de Música Clássica em Sorocaba, que fazem parte da Temporada de Música Clássica. No início as Oficinas tiveram um público pequeno, começando timidamente. E agora a sala de aula está sempre lotada. Além da indiscutível e excepcional qualidade da tua aula, o que mais você atribui o interesse sempre crescente do público em saber mais sobre a Música Clássica ?

 

Uma das principais razões para nós estarmos com as classes lotadas, em primeiro lugar é a manutenção, por muitos anos, de um mesmo projeto, apostando que com o tempo você vai conseguir envolver a comunidade, o que de fato está acontecendo. A gente tem um público fixo. Sempre novas pessoas se inscrevendo, aparecendo sempre interesse dos meios de comunicação como, por exemplo, das rádios.  Este ano, nas últimas três oficinas, eu dei entrevista para a rádio de Sorocaba e tenho certeza que isso vem ajudando a envolver a comunidade, além disso, eu acho que a gente encontrou um espaço ideal, uma escola de música que nos recebe e isso ajuda bastante.

2.      Qual a tua opinião sobre a existência e manutenção de uma TEMPORADA de música clássica no interior do Estado?

A gente sabe que cidades de interior no Brasil são maiores do que algumas capitais na Europa, e a gente vê na Europa e até mesmo

nos Estados Unidos pequenas cidades conseguindo ter uma programação cultural intensa, rica e de qualidade. A experiência International do Marco, de ter vivido fora do país, faz com que a MdA tenha essa visão que é bastante diferenciada. Você não precisa estar em um grande centro para ter na sua programação os principais músicos brasileiros e internacionais.

 

3. Este ano você também ministra Oficinas de Música Brasileira na Temporada Metso Cultural, aqui em Sorocaba. Diante da grandiosidade de tantos compositores populares brasileiros, da qualidade de tantos músicos, como você vê o atual cenário e mercado da Música Brasileira?

 

Em relação ao mercado da Música Brasileira, a gente tem um problema muito sério que envolve a cultura e a educação do país como um todo.  A gente tem grandes meios de comunicação que têm uma postura essencialmente comercial, são concessões públicas, mas que foram muitas vezes moeda de troca e que se servem apenas à prática da compra e venda dos seus espaços. Então, desde 1980, as nossas rádios e televisões deixaram de pensar na qualidade da música e simplesmente passaram a servir os interesses das grandes gravadoras. A consequência disso é que a gente tem um mercado, até mesmo do ponto de vista do capitalismo, muito insipiente porque temos somente classe alta e classe baixa, você não tem circuitos de circulação para música de qualidade e essa música hoje em dia envolve milhares de músicos. O Brasil talvez nunca tenha tido antes tanta qualidade com quantidade, mas esses músicos não conseguem viver da sua própria música. Então, neste sentido a temporada como o Metso Cultural ao ar livre, disponibilizando shows gratuitos com o que a gente tem de melhor de Música Popular Instrumental e de canção como Edu Lobo e outros tantos que já participaram, é fundamental para que essa tradição que é a nossa Música Popular, que está longe dos meios de comunicações, possa chegar às pessoas. A produção existe e nisso a  Mda proporciona que chegue às pessoas. Nós não temos em falta grandes compositores e artistas, o que está em falta, justamente, são produtores como o Marco de Almeida (Mda International). Havendo mais produtores como o Marco de Almeida e a Mda a gente teria séries de música popular em vários lugares e, de um certo jeito, o problema não é a falta de dinheiro! O dinheiro existe e as leis de incentivo que temos, embora precisam ser muito atualizadas, já são o suficiente para se fazer muita coisa. O que também falta é uma consciência de como é importante que as empresas tenham o conhecimento de como elas podem e devem contribuir com a cultura no país, cujo os próprios funcionários, os donos, os filhos dessas pessoas vão poder usufruir. Falta essa consciência de poder usar esse dinheiro que já existe e aplica-lo e investi-lo na cultura.

 

4. Você acredita que os grandes compositores clássicos  e suas obras que já foram  milhares de vezes executadas no mundo todo ainda exerçam um vivo e presente impacto no público ao redor de todo o mundo?

 

No caso da Música Clássica, especialmente o período que a gente conhece mais, que vai desde o Barroco até o final do Século XIX, e alguns movimentos especiais do Século XX, a gente pode dizer que foi tão forte artisticamente e culturalmente que se criou uma tradição, assim como a gente tem tradições na literatura, na literatura alemã, Goethe, por exemplo. Aqui no Brasil a gente sabe quem foi Machado de Assis, quem foi Euclides da Cunha, os poetas todos. Há uma tradição criada no mundo dos grandes compositores europeus do século XVIII e XIX e que de um certo jeito é um patrimônio tão rico que ele continua tendo a sua força quando há um contexto para que isso aconteça com qualidade. Pra se criar esse contexto é preciso organizar séries de Música de Câmara, criando Oficinas, como o que a gente faz em Sorocaba pra contextualizar a obra, então, a relação entre a parte educacional e a do concerto é a que cria este contexto para que a gente possa trazer para o presente as situações que foram criadas em outros momentos para outras pessoas mas que é um patrimônio incrível que a humanidade tem e é por isso que a Música é ensinada ainda hoje baseada nessas questões.

 

5. Existe uma influência direta das obras dos grandes compositores brasileiros que compuseram entre o Séc. 19 e 20 e os grandes compositores atuais brasileiros? Ou os grandes compositores atuais beberam sobretudo na fonte da música europeia?

 

Eu diria que não é exatamente um padrão estilístico nos compositores brasileiros atuais. Tem uma boa parte vinculada à Academia, aos grandes cursos de composição de São Paulo, que beberam muito mais da fonte Europeia, especialmente na fonte Europeia dos anos 50 para cá e trabalham bem dentro dessa influência. Os compositores brasileiros da primeira metade do Século XX, como, por exemplo, Villa Lobos,  não têm uma influência tão forte sobre esses compositores mais ligados à Academia, mas existem compositores de vários tipos que procuram ainda mesclar técnicas mais contemporâneas com uma relação com a Música Popular atualizada para esse Século XXI.  Então, tem também uma série de compositores que veio da Música Popular e foram buscar uma formação na Música Clássica, na Academia. A gente tem isso no Brasil desde o final dos anos 60, cursos superiores de Música. Esses compositores depois desta formação na Academia, voltam a trabalhar  com os elementos populares, isso é um cenário bem diferente do que aquele nacionalismo da 1ª metade do Século de Villa Lobos e Guarnieri. Há músicos populares que foram em direção à Música Erudita e depois voltam a trabalhar no meio do caminho. E temos muita coisa sendo produzida de maneira bem interesse, e algumas dela sendo apresentada aí em Sorocaba.

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