UM BATE-PAPO COM

RONALDO ROLIM

Continuando a 9ª Temporada de Música Clássica de Sorocaba - Schaeffler Música, dia 19 de outubro, teremos um recital de piano com um dos grandes pianistas da nova geração brasileira, o votorantinense Ronaldo Rolim.  No Programa: Schubert, Prokofiev, Liszt. O recital acontece no Teatro Municipal de Sorocaba às 20h30 com Entrada gratuita - Retirada dos ingressos a partir das 19h00 no dia da apresentação.

 

Confira abaixo o bate-papo entre Ronaldo Rolim e Marco de Almeida, diretor artístico da temporada.
 

 

1.       Por mais óbvio que seja... é importante saber como você analisa o atual cenário da música clássica no Brasil. Acredita que tivemos um desenvolvimento neste segmento nos últimos dois anos? Qual a tua impressão para o futuro?

O atual cenário da música clássica no Brasil é promissor mas ainda bastante incipiente. Vemos em vários lugares iniciativas interessantes, sobretudo no setor orquestral, mas ao mesmo tempo a música de câmara pena e muito para conseguir um lugar consolidado. O futuro me parece bastante incerto, dado o descaso que ultimamente tem afetado o setor cultural no Brasil. A esperança acaba se concentrando em poucas iniciativas de excelência que mostram o quão capaz o Brasil pode ser em apresentar um produto cultural de qualidade - caso da Filarmônica de Minas Gerais, por exemplo, ou do NEOJIBA, em Salvador.

2.       Vivendo no exterior (EUA) e tocando tanto em diversos países em volta ao mundo, você consegue ter uma visão do que cada país está fazendo (investindo) para manter vivo o interesse do público para a música clássica?

Há diferentes estratégias para formar/ampliar/manter público. A Inglaterra, por exemplo, é um país que tem um público extremamente diverso em concertos de música clássica, porque há uma democratização no acesso a ela. O BBC Proms é um grande paradigma de como levar música a preços populares a um grande público, seja ao vivo na sala de concertos, ou por rádio/internet. Por outro lado, nos EUA o sistema é completamente diferente, porque quase não há apoio estatal na produção cultural. Então a busca por novas plateias se dá por outros meios, com iniciativas de inclusão em escolas, hospitais, asilos, etc. Eu mesmo tenho feito muito isso ultimamente - levar a música a quem não tem como ir à sala de concerto. 

3.       Sabemos da tua especial ligação com a música moderna sobretudo através do teu estudo de doutorado  sobre Szymanowski.  Contudo é um compositor que o público não conhece bem e pouco executado. Como você chegou até Szymanowski e por que decidiu estudá-lo?

Szymanowski é um dos grandes compositores do século XX, mas muita gente ainda não sabe disso. Eu o descobri depois de uma sensacional gravação que ouvi de uma de suas peças para violino e piano, Mythes. Enquanto ouvia, pensava: porque as pessoas não conhecem essa música extraordinária? Desde então, aprender obras de Szymanowski e levá-las ao público tem sido uma missão pessoal. Em 2019, meu primeiro CD, dedicado integralmente a obras dele, será lançado no mercado internacional.

4.       Você acredita que a música composta hoje (música contemporânea mais experimental) tem um lugar de destaque nas temporadas em torno do mundo?

É fundamental termos música contemporânea tocada o mais frequentemente possível. Obviamente não devemos esquecer o repertório tradicional, mas creio que muito daquilo que é produzido hoje pode ter uma audição mais aguçada a partir do momento que os dois mundos são justapostos. A história da música é pródiga em se repetir da maneira mais criativa possível - vários aspectos musicais que podem não estar em voga hoje estiveram ontem e podem muito bem estar amanhã. A evolução da música é contínua e precisa ser testemunhada pelo público. Creio que há espaço para a música nova aqui nos EUA, como em certos lugares na Europa. No Brasil, assim como em muitos outros lugares, ainda há muito receio (ou despreparo) por parte dos organizadores de concertos em apresentar música nova, já que pode haver uma debandada de público. Mas a questão fundamental é como apresentar essa música para o público. É necessário colocar a produção contemporânea num contexto mais amplo, observando o papel que ela pode exercer no mundo em que vivemos hoje, e só assim podemos apreciá-la da maneira mais adequada.

5.       Em 2018 o que você destaca de mais gratificante ou importante das apresentações que já realizou? Por que?

Este ano dois projetos foram de suma importância para mim: a apresentação da Sinfonia No.2 de Bernstein com a Filarmônica de Minas Gerais, justamente no ano em que comemoramos o centenário do compositor, e também minha participação no festival Septembre Musical, em Montreux, Suíça, no qual tive a honra de participar junto a artistas do quilate de Martha Argerich, Charles Dutoit e Marc-André Hamelin. 

6.       A tua escolha de repertorio para os recitais segue uma lógica afetiva? Ou Como decide um repertório tendo infinitas escolhas e todas tão importantes?

A escolha de repertório é algo extremamente pessoal. Um programa de recital deve seguir uma certa trajetória, mas não necessariamente um tema. Em Sorocaba, a primeira metade do concerto mostrará duas sonatas com a mesma tonalidade, Si bemol Maior, mas separadas por cerca de 175 anos - um Mozart jovem e um Prokofiev maduro. A segunda metade é dedicada aos mestres da literatura renascentista italiana, Petrarca e Dante, que através da música de Liszt conseguem atingir uma dimensão ainda mais profunda. Ambas metades do recital retratam uma jornada do céu ao inferno e vice-versa - dos jogos pueris do Mozart adolescente aos horrores da violência totalitária na II Guerra Mundial, ou do amor idealizado dos sonetos de Petrarca ao inferno de Dante na Divina Comédia, e seu retorno aos céus ao fim de sua épica trajetória. Espero que os ouvintes possam desfrutar de um espectro dos mais variados nessa viagem de contrastes.

©2008-2017 mdainternational.com.br - Todos os direitos reservados