UM BATE-PAPO COM

João Donato

João Donato é um dos mais importantes compositores brasileiros. Em plena atividade, aos 82 anos de vida, viaja o mundo se apresentando com formações diferentes e lançando novos cds. Donato é uma referência fundamental para todas as gerações da grande MPB. 
João Donato, que já se apresentou em Sorocaba, volta para a cidade junto com o grupo Delicatessen Jazz no Metso Cultural 2016. 

1-      Você sempre parece estar muito à vontade nas diversas linguagens musicais que sempre abordou durante a tua carreira, não é mesmo? A busca do novo, musicalmente,  te estimula a produzir mais? 

 

Eu me dedico a maior parte do tempo a ouvir música e a praticar piano. O restante do tempo a música ocupa os meus pensamentos e o meu senso de observação. Porque música é a coisa que mais gosto e eu nunca fiz outra coisa na minha vida. De modo que eu não busco o novo musicalmente. Eu parto de um princípio de qualidade que me acompanha desde que me interessei por música e não me afasto deste princípio. Também não me esforço para produzir, a música está presente na minha alma, nos meus ouvidos, 24 horas por dia -  há algum tempo fui ver uma exposição de uma artista japonesa que dizia ter obsessão por bolinhas - eu posso dizer que tenho obsessão por música. De boa qualidade, claro. O que faço, então, quando começo um novo trabalho, é a capturar estas células de músicas que aparecem para mim. Com a ajuda dos produtores, organizo e faço delas obras.

 2-      Qual a tua opinião sobre a música popular brasileira atualmente, você que é altamente produtivo, aberto ao novo e as novidades sonoras? 

A rapazeada tá mandando muito bem. Conheci e rapidamente me apaixonei pelos músicos da banda Bixiga 70. Tanto é que gravamos um CD, o Donato Elétrico. Tem uma safra de cantoras que me chamam a atenção e com quem tenho feito parcerias, como a Tulipa, a Céu, a Mariana  Aydar, a Tiê e muitas outras. E também compositores letristas que  falam do nosso tempo atual. Agora mesmo estou começando a gravar um disco com o meu filho, Donatinho, um disco de composições inéditas nossas com letras de novos e veteranos compositores. Muita coisa boa. 

3-      Este  modo de conduzir teu trabalho musical, olhando sempre para o novo, seguindo e mantendo a coerência do teu trabalho musical, é fortemente estimulante! É algo que você programa com uma certa antecedência os  caminhos musicais a seguir ou eles “aparecem” à partir de inspirações e desejos explícitos? 

 

Compor, para mim, é como fazer um refresco em que se misturam frutas com sabores distintos e de forma harmônica até ficar uma delícia. É um dó com ré, com um mi, uma pitada de fá. Mas tem ter aquela vontade de chegar a um resultado gostoso, senão não é palatável. Bota um pouquinho de cupuaçu, um pouquinho de maracujá,  um pouquinho de tempero, de suíngue (risos). Pronto, ficou uma delícia. O esquema de acordes é mais ou menos assim. Primeira, terceira, quinta, sétima, nona... não é por aí... então, é só colocar os elementos básicos, como a dominante, uma maior, uma menor e já se encontra um caminho.A música é formada de harmonia. Existem músicas que são apenas harmonia e são belíssimas. A música óbvia – a que todo mundo sabe fazer - é a mais primitiva. Já juntar melodia, ritmo e harmonia requer uma dedicação. A harmonia tem que andar com você 24 horas. Faz você pensar em Deus, na paz, imaginar coisas belíssimas. É como se fosse fácil, não precisasse fazer esforço.Gosto de ficar numa em casa, com piano e a janelas abertas. A chuva caindo sobre a baía, depois o sol nascendo. Um silêncio que só é quebrado pelo canto dos passarinhos. Opa, os passarinhos! Eles trazem muitas ideias!

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